Alentejo Perdido

Li de uma penada o Alentejo Prometido de Henrique Raposo.
É o livro mais belo dos que já li dele.
Um excerto da aparição do Henrique na SIC Radical causou polémica no meu feed aqui no Facebook! Três minutos em que Henrique fala de alguns dos traços que identifica como alentejanos, presentes no livro, o suicídio, o individualismo, a fraqueza do laço familiar no Alentejo, o pequeno banditismo e a posição social e sexual da mulher. O excerto não faz grande contextualização, o Alentejo é apresentado como absoluto (os Alentejanos são isto, o Alentejo é isto), o que ajudou à intifada – a quente.
O livro é um “road-movie” (descrição do próprio autor) pessoal, uma descoberta das raízes familiares, sendo ao mesmo tempo uma análise sociológica, histórica e cultural do Alentejo, ou de um Alentejo, o litoral de onde a família de Henrique é. Obviamente que a descrição abarca, diversas vezes, toda a região.
Essa é uma das dificuldades que tenho com o livro, se é verdade que concordo com a maior parte dos traços apresentados no livro, penso que o Alentejo é diverso na sua divisão Alta e Baixa, interior e litoral. Conhecendo relativamente bem a zona descrita, reconheço alguns dos traços elencados e descritos, mas tenho dificuldade em descrever o Alentejo que conheço de uma forma tão dogmática, não reconheço a família como o “parente pobre” da paisagem alentejana. Nas aldeias, vilas e cidades que conheço o contrário é a norma, ainda que reconheça a justiça da referência ao contacto, o alentejano é menos expansivo fisicamente. Desconfio também da desconfiança alentejana descrita por Henrique, reconheço-a em algumas zonas, mas não é universal na região, de todo!
Henrique demora tempo na religião e no papel desta no perfil que traça, o catolicismo alentejano é pouco mais do que um pro forma. Falta, quiçá, uma análise histórica e sociológica mais aprofundada para perceber de que modos a presença árabe ainda influenciará as especificidades apontadas.
Resumindo, um grande pequeno livro, que nos coloca algumas questões importantes sobre o passado ainda desconhecido e um futuro que vai mudando lenta, mas seguramente.

 

por Tiago Falcoeiras

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